Tinha o vento contra a cara e as nuvens e as ondas do mar por conta própria. Sofria muito de amores e não havia amor que durasse que não magoasse. Jurava-me que um dia viria a não ser eu, sem saber o que dizia, sem antecipar a ilusão. Para me vingar de quem não gostava de mim, em primeiro lugar da minha mãe. E agora a dor de ser já quem se não queria, ultrapassada a irremediável distância que vai do desejo ao seu fim, sem nada mais poder adivinhar. Saudades de mim. De quem nunca fui.
Pedro Paixão, Quase gosto da vida que tenho
quase gosto da vida que tenho
o livro.
existe um livro que eu já conhecia e que nos sabia de cor mesmo antes de existirmos. existe um livro que nos conta a história e declama o medo, passo a passo, gesto a gesto, e que eu já sabia de cor. e eu amava o livro, e amo o livro, mas detesto o livro, porque detesto esta dor e este medo, este não-saber-o-quê, este não-entender-nada, este entender demais, tudo demais. eu amava o livro que nos explicava já antes de nos ter sabido tão literários. eu amava a imperfeição do amor que ele contava, a falta de defesas de quem nele figurava. “podia ser eu”. e sou eu. és tu. o amor... e eu não nos quero no livro, nem fora dele. eu quero-nos de outro jeito, sem ter jeito, sem saber como, sem saber se nos quero sequer, porque tenho medo da dor. dói demasiado esta história. ardem-me as páginas no peito. esta manha acordei e rasguei o livro ao meio e deixei-o em cima da cama, amargurado e frio, como um amante esquecido.
carta.
se eu soubesse escrever, enviava-te uma carta que te abrisse o peito. inventava palavras só para ti, que te esvaziassem por dentro, que te ferissem por fora, que te fizessem perder-te. se eu soubesse escrever, inventava-te um novo fado, em que todos os dias eram tristes, em que todas as noites eram graves, em que todos os passos fossem lentos caminhos para lado nenhum. queria descobrir para ti uma nova maneira de sofrer e oferecer-ta numa caixa, para que te consumisse a alma. muitos diriam que era o cúmulo do pedir demais. eu responder-lhes-ia que tu o conseguiste para mim, sem palavras.
fim.
hoje queria chegar ao pé de ti de mansinho e envolver-te nos meus braços enquanto te retribuía a marca que me deixaste na pele quando, com tanto amor, espetaste uma faca nas minhas costas, desta última vez que nos amámos.
hojes.
ele agarrou-a pelos ombros, sacudiu-a com força e fez aquele gesto que se faz quando se quer que alguém nos olhe. ela levantou a cabeça, o eyeliner preto a escorrer-lhe cara abaixo. os seus olhos cruzaram-se, ele beijou-lhe a testa, ela deixou cair outra lágrima, ele disse baixinho:
"-mas eu não quero ser teu amigo, não vês?"
viagem.
a música, a eterna música, arranha-me aos ouvidos ao entrar. a saudade que me causa cada nota, cada batida, cada som. a melodia rasga-me os tímpanos, não quer sair. eu não quero mais ouvir esta música, eu não quero mais ouvir. tudo no mundo me lembra de ti, maldito concerto que fomos ver juntos que era feito com sons de pequenos nadas, os nadas que encontro no mundo, o mundo que encontro na vida. detesto encontrar-te em mim, em todo o lado. detesto perceber-me assim.
ontens.
queria escrever, escrever, escrever, até acabar de deitar cá para fora todas as dores. faço força no papel quando escrevo, rasgo-o, escrevo, escrevo, sai tinta, jorra tinta, não sai dor, a dor acumula-se lá dentro, instala-se, deixa-se ficar. a dor é demasiada, a tinta é escassa agora, o papel é uma mancha, já não se consegue escrever.
alexandre.
eu quero declamar-te palavras como cascatas, que te ensinem de repente a coragem e que te façam pôr os braços à minha volta e prometer que vai ficar tudo bem. mas não conheço tais palavras, nem vai ficar tudo bem. se ficasse bem, acabava o tudo, não havia mais nada. porque nós só existimos na estranheza constante da nossa ausência de ser, cessando de existir quando nos resolvemos a ser. eu não me sei explicar, mas faz todo o sentido. também não nos sei explicar. eu sei que me dói o peito só de pensar em mais uma semana, duas semanas, três, vinte semanas sem ti, dói-me o peito, deve ser porque gosto de ti.